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Por que a Direita Brasileira não Ganha os Jovens?

Hoje, no século XXI, nós vivemos uma Guerra Cultural. Mas disso todos sabem. Ou deveriam saber.

Desde 1991, quando a União Soviética e seu Bloco colapsaram, a grande disputa entre a Direita e a Esquerda mundial mudou do eixo econômico (Capitalismo versus Comunismo), para o cultural e social (Conservadorismo versus Progressismo). Infelizmente, como quase tudo no mundo, esse pequeno fato histórico chegou ao Brasil montado num jegue perneta e a Direita nacional, ou ao menos as figuras com as quais a população alinhada com a Direita mais se identifica, ainda acredita que estamos batalhando a mesma Guerra Fria, ou pior, tem noção de que existe um conflito de vieses culturais e por conta de sua própria incompetência e falta de visão acaba empurrando seus simpatizantes para a direção oposta.

A verdade é muita simples: a Direita brasileira é brega. Se fosse uma pessoa seria um senhor em seus cinquenta e poucos anos, camisa polo dentro das calças sem bainha e acompanhado de seu fiel maverick, com os principais passatempos sendo as pegadinhas do João Kleber, o Cidade Alerta ou talvez o teste de paternidade do Ratinho, sem falar do cigarro sentado à mesa amarela da skoll.

Há algo de errado com isso? Bom, no plano pessoal absolutamente nenhum. No político? Absolutamente tudo, pois a Direita brasileira é boomer e uma Direita boomer não ganha eleições.

O que é boomer, você pergunta? Bom, se você não sabe é porque provavelmente é um e esse texto não vai te fazer muito feliz. Basta dizer que o boomer é sua tia que manda fotos de Jesus abraçando Bolsonaro, do seu tio que indignado posta sobre os absurdos que a esquerda fez em uma escola no interior do Tocantins, é seu vizinho que tem uma bandeira de Israel misturada com a do Brasil, ou sua tia-avó que acho que seu primo está invocando um demônio porque ela ouviu ele dizer que sacrifica “o Rei Caveira” para invocar o “Mago Negro”.

Feita essa imagem mental do que é o boomer da Direita você pode estar se perguntando qual exatamente é o problema? Eu digo para você: o problema é que esse tipo de gente é brega, é cringe e afasta completamente os jovens que acabam sendo acolhidos pela esquerda “cool” dos cantores pops, dos combos de energético e dos Reallity Shows. E o que é tão ruim nisso? O fato de que, enquanto a Guerra Econômica é travada pelos boomers, a Guerra Cultural é uma batalha dos jovens. E a Direita está em deficit de jovens.

Eu sempre gosto de perguntar como as pessoas acham que Trump ganhou as eleições dos Estados Unidos em 2016. Pessoas diferentes dão motivos diferentes, mas nenhum com mais de trinta anos acerta. Foram os memes. Trump foi eleito graças a um grupo dedicado de adolescentes que transformaram a candidatura de Trump de uma piada da Grande Mídia, em uma piada da Internet, depois em um movimento subversivo que caiu como uma luva para os garotos revoltados com a feminização da cultura, e finalmente em Presidente dos Estados Unidos. Dezenas de milhares de jovens na Florida, Ohio, Michigan votaram em Trump não por terem profundo entendimento de sua política econômica e fiscal, mas sim porque um dia ele falou sobre construir uma muralha na fronteira com o México e no dia seguinte haviam centenas de memes dele como um personagem de Game of Thrones protegendo o reino dos homens de zumbis ilegais.

A mesma coisa aconteceu aqui no Brasil em 2018 com Jair Bolsonaro. Uma grande massa de jovens, e eu fui parte desse movimento, se sentiram particularmente motivados a votar no então candidato não por sua inteligência ou plano de reformas, mas sim por como era épico ver seu compilado de vídeos brigando em plenário, como a pose da arminha instantaneamente resultava em reações hilárias e histéricas de qualquer esquerdista perto, ou mesmo pelo simples prazer de ouvir repetidas vezes o vídeo de Bolsonaro mitando ao som de Sweet Dreams, Bolsonaro New Age do Angra, ou Pitu e Nova Era. Este último, a propósito, se tornou um meme bastante popular na internet logo depois da eleição e cativou ainda mais jovens a apoiarem o novo presidente não por gostar dele, mas pela reação que isso gerava na esquerda a qual tinham um profundo desprezo.

Tão verdadeira é a afirmação de que as eleições de 2018 foram vencidas por jovens com bastante tempo livre e muito doritos, munidos de conexão com a internet e memes, que até hoje o Estado Profundo tenta empurrar controles absurdos sobre as redes sociais, com os opositores do presidente ainda tentando derrubá-lo com o “Inquérito das Fake News”, onde Fake News entendesse como um meme falando que Haddad tinha um pacto com o Demônio ou uma montagem mudando o que estava escrito na camisa de um candidato. Nada que uma pessoa com alguns neurônicos iria acreditar como algo além de uma piada… exceto se essa pessoa for um boomer.

Feito nossa pequena retrospectiva histórica me resta expor o motivo, a justificava, para eu estar redigindo esse texto. E ela é muito simples: a Direita está perdendo a batalha cultural, porque ela é feita pelos jovens, que a Direita em sua breguisse e incompetência acaba alienando. Como sei disso? Simples, sou jovem, sou de Direita e tenho contato direto com isso.

Vou começar dando o exemplo que me motivou e escrever esse texto.

Uma determinada influenciadora digital, de quem não lembro nome, publicou em seu Twitter “Terminei de ver Lúcifer. Alguma recomendação?” e foi respondida por um vereador bolsonarista com algo nas linhas de “Sugiro jejum e oração”. Acho que a situação fala por si só, mas vou fazer algo que nunca se deve fazer e explicar a piada: imagine você sendo um jovem sem nenhum alinhamento político em particular e que gosta muito da série Lúcifer, uma série inofensiva de comédia e investigação policial. Certo dia, pedindo recomendações por outras séries de temática parecida é atendido por duas pessoas: a primeira dizendo que também adora a série, sugerindo outras que você possa gostar, e a segunda não-ironicamente responde que “Você deveria procurar a Igreja”. Nesse cenário hipotético o nosso jovem apolítico muito certamente irá preferir a opinião da primeira pessoa, talvez até segui-la de volta, enquanto para a segunda provavelmente irá fazer uma cara feia e ignorar. Acontece que a pessoa prestativo e engajada com a cultura pop é uma vereadora do PSOL, enquanto quem teve a necessidade de evangelizar no twitter é um vereador bolsonarista.

Esse é um caso pequeno e ridículo no macrocosmos, mas serve perfeitamente para simbolizar como a Direita consegue ser cafona e Caxias até mesmo nas situações mais bobas. É a nossa própria versão da problematização praticada esquerda, com uma necessidade de tornar as coisas extremamente higienizadas e exageradamente evangélicas, apropriadas para a moral e bons costumes dos adolescentes e crianças. Ocorre que isso é extremamente prejudicial para a direita, pois enquanto a problematização é a arma da juventude esquerdista na Guerra Cultural, a pasteurização da Direita é feita pelos boomers em detrimento de todo o movimento. Naturalmente os jovens tem o ímpeto de se rebelar e desafiar o Estabelecimento, e mesmo quando vivemos uma época onde toda a Grande Mídia, Multinacionais e boa parte da máquina estatal são progressistas, em que nada é mais contracultural e insurgente que ser de Direita nossas “lideranças” continuam com seu velho discurso moralista, desperdiçando a oportunidade de ouro de fazer como Trump, Farage ou Salvini e lotar suas legiões com uma nova geração interessada no livre comércio, no combate à criminalidade, em animes, videogames, memes esquisitos e a liberação do porte das armas.

Basta ligar em qualquer noticiário da Record e ver quanto tempo irá demorar para eles culparem animes e videogames por algum crime hediondo; ou como pais não deveriam deixar seus filhos terem cartas de Yu-Gi-Oh!, pois é um jogo do demônio; ou como muito tempo na frente do computador é perigoso e os pais devem ter controle rígido ao que os filhos adolescentes olham e etc, etc, etc. Eu, politizado do jeito que sou, assisto esse show de horrores e por vezes me questiono como que no papel e no voto eu posso estar alinhado com essa gente, esses televangelistas que pintam na pior luz possível os interesses e hobbies da juventude alinhada com eles. Pior ainda quando escolhem, sem terem lido ou buscado qualquer tipo de informação além do que a Dona Neiva do interior de Goiás falou, condenar obras cujo seu conteúdo é apolítico, sem qualquer bandeira da esquerda, ou mesmo uma verdadeira carta a favor da Direita, como é o caso de muitos animes que prezam pela tradição, coragem, amizade, família e trabalho duro, mas que são transformados em vilões do Jornal das 18:00 porque são “violentos e tem sangue”.

Se eu, politizado que sou, sinto vergonha desses políticos, repórteres e pastores alinhados com o mesmo movimento que eu imagina o que pensam os jovens entrando na política.

Formado em Direito pela Universidade Federal de Pelotas, se dedica principalmente ao estudo…